Dirlei Strapasson
(18.04.1975 - 27.08.14)

Por Debora Strapasson

 

Vou contar a história do Dirlei, porque eu sei que foi um exemplo de vida:

O Dirlei era muito feliz, viajava sempre, gostava de mato, rio, nadava sempre que podia, gostava de andar e correr, mesmo com o joelho que não dobrava todo, tinha 36 pontos de um acidente de bicicleta.
Desde pequeno nos cuidou como pai, fazia cabanas e casinha em cima das árvores, nos ensinou a nadar jogando cipós de um lado do rio e segurando do outro, a fugir dos cachorros e bois quando íamos roubar frutas nos vizinho (que sempre pareciam melhores que as nossas.).., levávamos choques nas cercas elétricas, pulávamos nos cipós para atravessar os rios...
O Fábio e o Márcio foram seus parceiros por muito tempo, tiveram uma banda, gostava tanto de andar, gastavam suas passagens e vinham andando do Sitio Cercado até o Fazendinha e do Fazendinha até o Campo Comprido, bairros de Curitiba - PR
Jogava um futebol horrível, era desengonçado com a bola, era até engraçado.
Achávamos que não ia gostar de mulher, de tão tímido que era na adolescência, daí quando começou a namorar não tínhamos paz, pois namorava com várias ao mesmo tempo, e uma ligava daqui, outra dali, e não sabíamos o que dizer.
Sempre foi a favor da paz, e das famílias, não gostava de ver brigas e separações, e falava sempre que existiam problemas maiores.
A uns 15 anos quando descobriu a doença:
Esclerose lateral amiotrófica (ELA), os médicos deram 6 meses de vida, não aceitou, se revoltou com Deus.

Quando o médico receitou as muletas, ele não aceitou, caiu, quebrou, saia sem muletas novamente e caiu quebrou perna, braço, queixo... daí teve que ficar com as muletas.
Quando chegou a cadeira de rodas não quis, travava a mandíbula para não comer, queria morrer de qualquer forma ... revoltou-se e a doença evoluiu muito rapidamente.

Como a descrença e revolta dele era muito grande, cheguei ao ponto de quase desgraçar nossas vidas quando vinha um ônibus, mas Deus teve piedade de mim, e o motorista freou, não aguentava ver ele revoltado da forma que estava.

Rezamos muito com ele, voltou a ter fé, aceitou a doença e a vontade de Deus, a doença estacionou, e ele era muito feliz, sorria muito, contava causos, rezava muito, o ministro sempre ia aos domingos levar a santa hóstia, ele aguardava ansioso esse momento.

Não perdeu a fé, sempre em dias alegres e festivos saia lágrimas de alegria do seu rosto, ao dar um presente aos sobrinhos, ao receber um... 99,9% dos seus choros foram de emoção e não de tristeza.
Virou rotina, sempre nos juntávamos para conversar do lado do sofá que ele sentava (não gostava da cadeira de rodas) e todos conversávamos juntos, sempre gostava de contar os causos do mato, dos tiros que se escapava quando entrava na fazenda dos outros...

Sempre amou intensamente, principalmente nós e os seus primos, que fomos criados como irmãos... falava muito do Gima, Arilson, dos primos, e tios, mas os que não esquecia nunca era a tia Célia, o Ander e o Cesar.
Era muito simples, e gostava de pessoas simples, cumprimentava todos, sem exceção, era lindo de coração.
Gostava muito de rock, peixes, e plantas, sempre teve aquários lindos.
Amava a vida acima de tudo, mesmo nas condições que tinha, era amoroso, doce, paciente, foi muito feliz, lutou pela sua vida sempre, driblou seu destino por 15 anos... coisa que médico nenhum entendeu o porquê dele estar vivo ainda... eu sei... “persistência, amor a vida, fé”

No sábado, sozinho com a mãe em casa, teve uma parada respiratória, e como morto, minha mãe desesperada implorou para ele que não morresse sozinho com ela, pois não aguentaria e morreria junto com ele, ele bom de coração como era, buscou o sopro da vida novamente, e respirou a tempo de chegar ao hospital e ter outra parada lá, ela já não estava mais sozinha e neste momento os médicos já falaram que estava nos aparelhos e era muito grave, e que não sentia mais nada, pois estava entubado e não iria resistir.
Como ele nunca ficava sozinho pelo medo de morrer, quando me despedi dele, falei no seu ouvido o que estava no meu coração, e fiz questão de falar para ele que estávamos todos lá, para que não tivesse medo.... neste momento correu uma lágrima no seu rosto... para mim foi como um turbilhão de palavras.

Quando o médico mandou que entrassem os pais do Dirlei, ele abriu um sorriso enorme para se despedir de seus pais.
Ele não sorria mais aberto, pois os seus músculos não permitiam, mas tirou forças do céu e conseguiu dar um sorriso inteiro e completo nos seus últimos suspiros.
Mas, para surpresa de todos não terminou, soubemos que ele já tinha plano funeral e que ele mesmo tinha escolhido onde gostaria de ser enterrado... a alma dele está feliz, pois lá é lindo, tem correntes de água com peixes e pedras, que era uma das coisas que em vida ele mais gostava, escolheu um lugar como se fosse a casa dele mesmo.
Agradeço a todos que ajudaram, nos ampararam, os vizinhos e familiares que foram se despedir dele. Onde estiver, com certeza, está feliz com isso.

Minhas palavras deixei no seu ouvido, meu irmão, na nossa despedida...

Como sua doença era fatal, nos preparamos muito para isso, achei que ia ser mais fácil, já que tivemos 15 anos de preparação... NÃO. É meu irmão, está doendo muito, parece que estão arrancando de dentro de meu peito, o coração, um nó na garganta... estou pedindo muito a Deus que isso passe logo, e tenho fé que logo, o que vai ficar é somente a saudade...

Só tenho uma certeza nessa vida : “O AMOR NUNCA MORRE”



 


   

 

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