Jaí Antonio Strapazzon
 

A saga: Cap.1

 

O amanhecer daquele longínquo três de outubro do ano de 1891 era tristonho, para a família de Bernardo Strapazzon. Os filhos, no entanto, alheios aos motivos de tão inesperada viagem já se organizavam alegres, cantarolando músicas de infância e acomodando dentro de caixotes improvisados alguns brinquedos. Bernardo e Catterina, no entanto, não escondiam no semblante um ar nostálgico, um misto de resignação e tristeza. Percorriam cada cômodo da velha casa como se despedindo de cada fenda, de cada mancha nas paredes de tijolos cozidos. Pela janela olhavam uma ultima vez o vale com o parreiral, o quintal onde algumas galinhas, e porcos ciscavam e fuçavam a cata de algum alimento. Tudo aquilo, agora faria parte do passado, o futuro deveria ser desbravado longe dali. Uma terra que acenava com grandes possibilidades de fartura. Não iriam levar quase nada. Algumas roupas, pequenas ferramentas, sementes, um pequeno farnel com mantimentos, no peito um cordãozinho com a imagem da São Vito.

O porto de Gênova era um amontoado de tralhas, gente e carroças, vinham de todas as partes, se aglomeravam rente a escada de acesso ao vapor, onde um marinheiro fazia a triagem dos documentos. O Duca Di Galliera, atravessaria mais uma vez o Oceano. Alem da tripulação levaria nobres em sua primeira classe, negociantes e artífices em sua segunda classe, e na terceira classe já abaixo da linha de navegação os mais humildes, os imigrantes que partiam em busca de melhores dias.

Agora, já devidamente acomodados em seus alojamentos, olhavam pela última vez o porto que aos poucos desaparecia, e onde parentes e amigos acenavam aos viajantes. As lágrimas rolavam pelo rosto de Bernardo e Antonio, como também dos filhos maiores que já entendiam, ser esta uma viagem sem volta. Representavam de tudo, desde a saudade que já os invadia, até a angústia de uma viagem demorada, sofrida, e carregada de esperanças. O que os impelia eram as noticias que chegavam de muita fartura, o governo estava distribuindo terras a quem desejasse plantar, prometia sementes, casas, máquinas. Tudo iria depender da coragem e da força de vontade.

Já em alto mar, os passageiros começavam a sentir os primeiros incômodos da viagem, o constante embalo da embarcação, o ar pesado cheirando a mofo, a umidade e a dificuldade de realizar as mais simples tarefas tornavam a travessia quase insuportável. A dificuldade dos ocupantes da terceira classe desfrutar de uma manhã de sol era enorme, a tripulação os considerava quase que como mercadorias, alguns minutos de sol no convés era privilegio de poucos, e custava caro. As crianças tinham para brincar pequenos espaços entre caixotes, escadas, cordas e fardos. O chão sempre encharcado pela água que filtrava pelas escotilhas quando uma onda mais gigante acertava a embarcação. Se fazia necessário, bombear constantemente a água para fora. A noite, o frio castigava inclemente os corpos amontoados em camas improvisadas. Vômito e diarréias eram combatidas com pastilhas de sulfa, a água era racionada e os gêneros alimentícios eram escassos. Quem, eventualmente viesse a falecer tinha o corpo envolto em uma pesada manta, de algodão e jogado ao mar. Não se podia correr o risco de alguma doença vir a infectar todo o navio. Mas, em nenhum momento aquelas pessoas se maldiziam. Havia em seus corações uma fé inabalável, uma força que os empurrava na direção de uma terra desconhecida, que lhes acenava com a perspectiva de uma vida mais humana. Os capelães da embarcação constantemente passavam por todas as classes, realizavam-se missas ainda que com total falta de espaço. Nestes momentos os olhos brilhavam, as palavras de coragem pareciam rejuvenescer até aos mais velhos, renovavam-se as esperanças, refaziam-se planos, e nos poucos momentos de sossego alimentavam-se novos sonhos.

 

Navio que trouxe o Casal Bernardo Strapazzon e Catterina Strapazzon com seus seis filhos menores

 

Jaí Antonio Strapazzon

A saga: Cap.2

 

O primeiro dia de viagem correu tranqüilo, as famílias aos poucos começaram a conversar traçar planos, trocar informações. O tempo permaneceu firme, pelas escotilhas, podia-se ver  o céu azul alguns pássaros que ainda sobrevoavam a embarcação. Aquilo era sinal de que ainda estavam próximos ao continente. Aos poucos foi escurecendo, e podia-se ouvir o som ensurdecedor dos potentes motores, as luzes acesas, muito fracas davam um ar de tristeza ao ambiente. Percebia-se muito fortemente o bater das ondas no casco do vapor, o balançar constante exigia cada vez mais uma dose de equilibro extra.

À noite, com o auxílio de um marinheiro italiano, com quem haviam feito amizade, conseguiram subir ao convés do barco. Inebriaram-se com o ar frio e a leve garoa. Olhavam para o céu e dirigiam o olhar para a pátria que a cada minuto ficava mais distante, então voltavam os olhos para o infinito, fitavam o negrume do oceano, e dirigiam preces por uma viagem tranqüila, e muita prosperidade na nova jornada.

Numa madrugada, foram acordados sobressaltados pelos gritos da tripulação, que pediam a todos ficarem em locais firme, preferencialmente junto as suas camas, que não abandonassem objetos soltos e que mantivessem a calma mesmo que se, de repente, as luzes fossem todas apagadas. Uma tempestade se aproximava pela proa, o barco já dava sinais evidentes de que sofreria com o impacto dos fortes ventos e a enxurrada de água que entrava a cada onda gigantesca que sobre ele se abatia.

Por algumas horas instalou-se o pânico, em todas as classes. O vapor parecia que a qualquer momento iria partir-se ao meio ora adernava para um lado, logo em seguida para outro. As crianças gritavam, choravam, agarravam-se aos pais, adultos passando mal, crises de choro e desespero. O clima era de terror. Os objetos pareciam obedecer a uma sinistra sinfonia, flutuavam pelo chão que nestas alturas já acumulava uma lâmina de água bem acentuada. Havia de tudo, roupas, latas de mantimentos, ferramentas. A única coisa naquele momento a fazer era rezar, apegar-se a fé, pedir a DEUS que devolvesse a calmaria para aqueles mares.

Foram horas que pareceram uma eternidade. Já ao amanhecer com algumas ondas ainda batendo nos costados o “Duca Di Galliera” continuava avançando em direção a nova pátria. Lá dentro, quase nos porões, era hora de avaliar os estragos, fazer a limpeza, procurar pelas tralhas esparramadas e colocar em ordem tudo o que a tempestade havia misturado. A sucessão de dias conturbados, a ingestão de alimentos já quase deteriorados, pelo tempo e as condições de armazenagem, começam a produzir uma espécie de depressão, uma vontade louca de sair daqueles porões e gritar pela saudosa San Vito, pelas vinhas, pelos parreirais, pelos amigos e vizinhos que lá ficaram.

Febre, diarréia, vômito, náuseas, tonturas, formigamento das pernas pelo tempo de inatividade eram companheiras constantes daqueles heróis. Tudo era aceito com resignação, mas alimentado principalmente pela fé que traziam no peito, pela crença no DEUS que havia lhes proporcionado aquela chance de uma nova vida. Eles não chorariam, não esmoreceriam. Trabalhariam, enfrentariam todos os perigos. Fundariam uma nova Itália, uma nova San Vito se preciso fosse, mas, haveriam de vencer.

Ao alvorecer do décimo oitavo dia, foram avisados de que já se aproximavam do porto do Rio de Janeiro e pediam a todos que se organizassem com documentos e bagagens para facilitar o desembarque. Os rostos abatidos, alguns desfigurados pelas agruras da longa viagem, agora ensaiavam um leve sorriso. Abraços emocionados, e velhas cantigas podiam ser vistos e ouvidas, aquilo também fazia parte de suas vidas, de suas raízes, enfim a terra prometida, o Oasis, então era hora de comemorar, estavam chegando os vários imigrantes da família Strapazzon que haveriam, como se verá mais adiante, de transformar totalmente os campos e as encostas da serra gaúcha.



Jaí Antonio Strapazzon

A saga – Cap.3



Os últimos dias da viagem haviam abatido o animo e entusiasmo dos viajantes, mas, a noticia de proximidade com o continente, desencadeou uma espécie de euforia. As pessoas começavam a organizar-se, com seus pertences, não demoraria muito e já estariam pisando solo brasileiro. Não que aquilo significasse menos trabalho, menos sacrifícios, mas o simples fato de se verem livre daquele porão de aço, do aperto, do cheiro insuportável de umidade, de víveres apodrecendo já era o bastante para se sentirem mais aliviados.
Ao amanhecer do décimo oitavo dia, a movimentação aumentou, todos foram convidados a revisarem seus documentos e pertences, o desembarque era questão de algumas horas apenas. Do topo da escada que dava acesso ao cais do porto do Rio de Janeiro Bernardo podia observar a quantidade de patrícios, que já haviam saído do vapor. Lentamente, com a família, começou a descida, eram os primeiros passos em direção a uma nova vida. Dali continuariam o trajeto em carroças até a estação ferroviária que os encaminharia aos seus destinos.
Já era noite, quando todos se acomodaram nos galpões que serviriam de hospedaria. Sabiam que dentro de mais algumas horas teriam que enfrentar mais uma vez as agruras do navio que os traria ao sul do continente. Já extenuados, puderam pela primeira vez em muitos dias dar um descanso sem aquele incomodo balançar e aquela sensação de abafamento. Todos dormiram. Já ao amanhecer, novamente a rotina do embarque, desta vez no vapor São Lourenço que os traria até o porto de Rio Grande. Após seguiriam de trem até Porto Alegre, onde mais uma vez de barco seriam trazidos até a várzea do Rio Caí.
Aqui, começa verdadeiramente a saga das famílias de imigrantes, tudo o que até então haviam passado passaria a ser pouco em vistas dos desafios que lhes seriam apresentados. As colônias destinadas aos imigrantes foram a D. Isabel (atual cidade de Bento Gonçalves). Agora a chegada aos seus destinos caberia ao improviso de cada um. Carroças, carros de boi e muitos a pé, deram início à subida das serras. Os caminhos difíceis, picadas abertas faziam às vezes de estradas. As crianças e os velhos eram os que mais sofriam na subida íngreme. Às vezes paravam, montavam pequenos abrigos, e ali permaneciam buscando recompor as forças. Como os caminhos foram abertos em anos anteriores muitos deles já estavam tomados pelo mato, pedras, troncos caídos e isto demandava trabalho extra para abrir novamente as trilhas.
A família de Bernardo Strapazzon instalou-se no local denominado Linha Jacintho, e dali para outros locais. Logo, viram que a rotina seria dura e penosa. As casas deveriam ser construídas com madeira do local, então se fazia necessário “abrir” toras para transformá-las em tábuas, moirões, caibros. Aquelas famílias em cujas terras encontravam um córrego de água logo tratavam de montar rodas d!Água, o que de certa forma suavizava, em muito, o trabalho com a madeira, pois através de correias e eixos a força motriz era usada para abertura e corte das toras de araucária, o que até então, era feito com trançadores, uma espécie de serrote gigante, operado por dois homens e que exigia um desgaste físico enorme.
Com as primeiras casas, os primeiros lotes já demarcados, os imigrantes levantavam os “oratórios”, onde costumavam juntar-se para as orações , hábito que aliás foi difundido, e que pode-se notar até os dias atuais, pelo enorme número de capelas em todas as regiões de colonização italiana.




Jaí Antonio Strapazzon


Independentemente da grafia do nome, e das alterações sofridas com o decorrer do tempo, a verdade é que o trabalho, o suor, o sacrifício destes imigrantes, não só italianos, mas, de todas as nacionalidades que aceitaram os desafios de construir um novo mundo para si e suas famílias, surtiu efeito o que fica provado quando se visitam estas cidades de colonização tipicamente estrangeiras. A pujança de seu comércio, a beleza de suas ruas, praças e jardins são provas inequívocas do carinho e abnegação dos moradores, em sua quase totalidade imigrantes estrangeiros. Aqui, tentamos pintar, ainda que com tons muitos suaves as dificuldades e os sacrifícios vividos por estes povos que tanto contribuíram e que tanto ainda fazem pelo Rio Grande do Sul, através do seu trabalho e dedicação. Homenagem particular a todos os descendentes de Bernardo e Catterina Strapazzon e de maneira muitíssimo especial, como homenagem póstuma ao meu pai Angelo e minha mãe Adélia, bem como a meus irmãos Danilo e Luiz Walmir.

 


 

 

 

 

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